sábado, 7 de novembro de 2009

Vagabundo


Uma breve pausa para recarregar as idéias.
Volto dia 18, quarta-feira. Até lá!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)



Manhã
Santa Maria La Longa, 26 de janeiro de 1917

Ilumino-me
de imenso
_________

A noite bela
Devetachi, 24 de agosto de 1916

Que canto levantou-se esta noite
que entretece
com o cristalino eco do coração
as estrelas

Que festa vernal
de coração em núpcias

Fui
um charco de trevas

Hoje mordo
como uma criança a teta
o espaço

Hoje estou bêbado
de universo

Tradução Geraldo Holanda Cavalcanti

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Mostra cansada


Tenho nas paredes cartazes de antigas Mostras de Cinema de São Paulo: a de 1997, com o “homem câmera” de Angeli, as árvores azuis de Alexander Sokurov (2002), o desenho vermelho de Manoel de Oliveira (2006). Nestas e em outras ocasiões lá estive, com o crachá pendurado, catálogo no sovaco, arsenal de balas e caderninho de anotações. Sim, sou desses malucos da sala escura, membro da eclética fauna que freqüenta as projeções mais absurdas como se participasse de uma confraria secreta.
Morando e trabalhando longe, cometi insanidades pela cinefilia. Certa vez, fui de Rio Claro à capital em uma hora e meia (não tentem reproduzir isto em casa) para não perder um filme. Nem gosto de lembrar as multas por estacionamento irregular e os ataques histéricos no trânsito provocados por uma exibição iminente.
Devo muito às seleções de Leon Cakoff. Por seu intermédio descobri Hal Hartley, Jim Jarmush, Sokurov, Michael Haneke, Lars von Trier e todo o Dogma, os primeiros Kieslowskis, uns raríssimos Bergmans e uma constelação de documentários inacessíveis.
Agora canso apenas de imaginar a viagem, os congestionamentos, a correria, as filas, os percalços de organização, a concorrência dos credenciados. A experiência como diretor da Cinemateca Campineira ensinou-me a valorizar incondicionalmente o sucesso e a longevidade da Mostra. Mas não há como ignorar que ela se tornou insuficiente para a metrópole caótica, além de obsoleta perante a voracidade do circuito comercial, do mercado digital e até da pirataria.
A Mostra escaparia da saturação se redimensionasse sua estratégia de exibição (descobrindo espaços suficientes para abrigar as grandes estréias), se revitalizasse as retrospectivas nacionais, autorais ou temáticas, se promovesse conferências e debates mais audaciosos com autoridades do mundo cinematográfico e se levasse parte da programação para regiões carentes e cidades próximas, ávidas por eventos culturais.
Aceitar passivamente as limitações desse formato consagrado levará, em pouco tempo, à decadência que já acomete outros festivais brasileiros.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Carta aos petistas: momento de reagir

Publicado na revista Caros Amigos, em outubro de 2009.

Se quiser manter alguma esperança de eleger Dilma Rousseff em 2010, o PT precisa mobilizar-se imediatamente. A supervalorização da popularidade do presidente Lula mergulhou o partido numa apatia condescendente, agravada por conflitos internos vazios e desagregadores.
A visibilidade midiática de críticos e desertores, sob o silêncio dos governistas, fortalece o mito da desilusão do petismo histórico. Urge conclamar intelectuais, artistas e demais celebridades a posicionamentos públicos sobre a campanha presidencial, demonstrando comprometimentos pessoais inequívocos.
À militância cabe posicionar-se imediatamente acerca de uma eventual coligação com o PMDB. Ela será decisiva para as chances eleitorais de qualquer candidato, e não apenas graças aos importantes minutos nos horários eleitorais. Alianças de envergadura nacional costumam ser indigestas e exigem condescendências; seus limites merecem discussões pragmáticas, livres de purismos ideológicos.
Um pedido aos senadores e deputados do PT: abandonem a pantomima da indignação tardia. Se o fardo é insuportável, tenham a honradez de entregar os cargos de seus correligionários em todos os escalões do governo e iniciem um novo projeto político. Mas, em nome da transparência, ou por simples espírito republicano, parem de agir como se não soubessem o que está em jogo.
Apropriando-se das conquistas da administração atual, com a vitrine da Copa do Mundo, José Serra seria facilmente reeleito presidente. Depois, as fortunas advindas do pré-sal financiariam também seus sucessores, perpetuados num período inimaginável de continuísmo. Mesmo que então surgisse uma nova liderança progressista viável, os danos da hegemonia tucana já estariam irremediavelmente consolidados.
Essa é uma forma indigna de desperdiçar todos os esforços gastos em quase trinta anos de lutas e sacrifícios.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Marina Tsvetaeva (1892-1941)



À vida

Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.

Tradução Haroldo de Campos

À vida

Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel
Árabe.

Tradução Augusto de Campos

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A tarifa é nossa


Enquanto a Vale paga propagandas milionárias nos horários nobres da TV e nas melhores páginas dos periódicos (mas por que um gigante da indústria de base precisa se vender ao consumidor comum?) e enquanto a Telefonica afunda seus clientes em apagões e desculpas esfarrapadas, descobrimos a tunga das tarifas cobradas a mais pelas concessionárias de energia elétrica. E o pior: tudo começou com a privatização de FHC.
Durante a campanha presidencial, falaram que era golpe baixo acusar os tucanos de privatas. Pouco depois, José Serra tentou vender a Cesp, no que seria um dos maiores leilões da privataria nacional.
Assim é fácil posar de “mudérnio”. O desrespeito e a incompetência de particulares são sempre culpa das agências governamentais. Se reclamamos dos absurdos cobrados para utilizar nossos celulares cintilantes, alguém repreende: devemos ser gratos, porque até quem não possui comida no prato pode ostentar seu aparelho de última geração. Oh, obrigado, Efeagá!
Quando a coisa aperta e alguém ousa questionar o que foi feito das concessões de serviços públicos, fogem todos para a histeria anti-estatizante. A CPI das Tarifas de Energia Elétrica poderá contribuir um pouco para esse debate, apesar do silêncio generalizado da imprensa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O turista eleitoral


No último dia 15, a Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou a Proposta de Emenda Constitucional 1/2008, da deputada Célia Leão (PSDB). Agora, a administração José Serra está livre para financiar “publicidade de qualquer natureza fora do território do Estado, para fins de propaganda governamental”. A idéia é promover o turismo.
Entenderam?

Mas espera um pouquinho – e aquela milionária campanha “institucional”, paga pelo contribuinte para o governo paulista conquistar os espectadores amapaenses? Era tudo irregular mesmo, na cara dura? E ninguém faz nada?
As críticas de Lula aos Tribunais de Contas são de fato absurdas.

domingo, 25 de outubro de 2009

Wallace Stevens (1879-1955)











Treze maneiras de olhar um melro

I

Em vinte montanhas nevadas
Só uma coisa se movia:
O olho do melro.

II

Eu estava entre três opções,
Como árvore
Em que pousaram três melros.

III

O melro girava no vento outonal.
Era um figurante na pantomina.

IV

Um homem mais uma mulher
Dá um.
Um homem mais uma mulher mais um melro
Dá um.

V

Não sei se prefiro
A beleza das inflexões
Ou a das insinuações,
O assovio do melro
Ou o instante depois.

VI

O gelo cobria a longa janela
Com bárbaros cristais.
A sombra do melro
Cruzava de lá para cá.
E na sombra
Desenhou-se
Uma causa indecifrável.

VII

Ó homem magro de Haddam,
Por que sonhais com aves douradas?
Acaso não vedes o melro
A caminhar por entre os pés
Das mulheres que vos cercam?

VIII

Sei de nobres canções
E ritmos lúcidos, irressistíveis;
Mas sei também
Que o melro tem a ver
Com o que sei.

IX

Quando voou além de onde a vista alcança
O melro demarcou o limite
De um de muitos círculos.

X

Ao ver melros voando
Numa luz esverdeada,
Mesmo os cáftens da eufonia
Exclamariam espantados.

XI

Ele atravessava Connecticut
Num tilburi de vidro.
Certa vez teve medo:
Por um instante pensou
Que a sombra da carruagem
Eram melros.

XII

O rio está correndo.
O melro deve estar voando.

XIII

Era noite, a tarde toda.
Nevava
E ia nevar.
E o melro imóvel
Num galho de cedro.

Tradução Paulo Henriques Britto

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Angeli

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A ditadura uspiana

A Universidade de São Paulo elege novo reitor em ambiente de conclave. O sistema é indireto, por colegiado, com participação majoritária de professores e minoritária de alunos e funcionários (que, somados, não chegam a um terço dos votos).
Os debates entre candidatos são rasteiros, protocolares. Até parece que, meses atrás, a cavalaria não atacou civis que protestavam contra a princesa do campus. Espertamente, os pretendentes apenas pincelam as questões mais delicadas e urgentes, repetindo o ramerrão do burocrata-que-sabe-o-seu-lugar.
O sistema eleitoral das universidades públicas é uma excrescência legada pelo regime militar. Como alguém ainda pode apoiar o delírio excludente segundo o qual um professor “vale” mais que dezenas de outras pessoas que vivem no mesmo ambiente? Os estudantes são obrigados a eleger deputados estaduais mas não podem escolher o administrador da universidade onde passam importantes anos de sua formação pessoal.
A arbitrariedade não é gratuita. Toda uma rede de favorecimentos pessoais e uso irregular de verbas públicas depende desse sistema decisório verticalizado. Ninguém vai arriscar uma brilhante carreira (e bolsas, e bonificações, e diplomas grátis!) para defender os interesses de moleques cabeludos.
O corpo docente adora posar de donatário ilustrado das coisas públicas, o guardião do castelo do saber. Os departamentos e gabinetes odeiam prestar contas e os governos estaduais preferem fingir que a tal autonomia universitária é compatível com esse viciado ambiente de interferências políticas. E o movimento estudantil, empenhado em festas e ocupações inócuas, não pode reclamar muito, já que, afinal, a própria UNE elege sua diretoria por método semelhante.
A didática brutalidade dos protestos recentes mostrou estar próximo o dia em que esse gigantesco vácuo de legitimidade tomará proporções realmente transformadoras. E ninguém poderá fingir surpresa.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

"Em defesa de Barrichello"

Sensacional a análise de Flávio Gomes sobre as expectativas alimentadas pela rede Globo em torno de Rubens Barrichello. Serve também para suscitar importantes debates sobre o próximo ano esportivo, quando a Copa do Mundo renovará o ufanismo generalizado.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Só Lina salva

Agora esses petralhas malditos não escapam. Apareceu a agenda secreta de Lina Vieira. Oh! Escândalo! É o fim de Dilma Rousseff!
De suas páginas tenebrosas surgirá o tão esperado diário da malvadeza palaciana. Haverá menções a orgias satânicas, zoofilia, mil roubalheiras que chocarão nossa virginal opinião pública. Ninguém escapará. Nem Lula, nem Ciro Gomes, ninguém.
Mas essa imprensa não parece criação de novela mexicana? A moça pede um tempinho, escarafuncha seus armários bagunçados e, que sorte, descobre o caderninho de preciosidades... ali, no armário, esquecido exatamente como ela o deixou.
Então um exército de profissionais (formados em jornalismo, diga-se) abandona qualquer outra prioridade para especular sobre anotações tão valiosas. E todo mundo acredita piamente nesse factóide rasteiro, em sua relevância jornalística, nas boas intenções da ex-funcionária martirizada.
Aaaaaai, que preguiça.

domingo, 18 de outubro de 2009

John Donne (1572-1631)

Elegia XX (Indo para o leito)

Vem, Dama, que eu desafio a paz,
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu aos homens.
Tu, meu Anjo, é como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu Império!
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo)
Sem vestes. As jóias que mulher ostenta
São como bolas de ouro de Atlanta:
Os olhos do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a qual tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-Te:
Atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

Tradução Augusto de Campos

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

“Che”

Ao editar o extenso material bruto à sua disposição, Steven Soderbergh deveria ter sacrificado a primeira parte do enredo para acomodar a segunda num único longa-metragem. Preservando aquela como obra autônoma, a inferioridade da seqüência prejudica o conjunto.
É fácil esnobar o projeto. A crítica cinematográfica impregnou-se de certa obtusão da intelectualidade conservadora, empenhada no ataque “iconoclasta” aos símbolos históricos da esquerda. Essa postura ideológica termina empobrecendo as análises propriamente estéticas, reduzidas a apologia política.
Considerado em sua essência cinematográfica, o primeiro “Che” é quase grandioso. O maior equívoco de Soderbergh foi justamente esforçar-se tanto para evitar o panfleto e a apologia revolucionária. Indiferente ao aspecto épico da aventura insurrecional, tenta esvaziar os personagens de cargas heróicas. Por isso incorre no equívoco oposto, o de realizar um filme de ação frio e distante.
A segunda parte, totalmente dedicada à fracassada guerrilha boliviana, parece anticlimática graças à carência de sedução visual. Não é qualquer cinematógrafo estrangeiro que consegue apreender a exuberância da natureza tropical sob suas luzes inclementes. Para atingir um nível como o de Werner Herzog em seus filmes amazônicos, é necessário contar com a câmera de Thomas Mauch (além do arrojo visionário). Mas o tal Peter Andrews dos créditos é o próprio Soderbergh, que assinou com esse pseudônimo a fotografia de quase todos os seus filmes. Tivesse contratado um esteta como o nosso Walter Carvalho, o martírio de Guevara ganharia importância antológica (basta lembrar a beleza natural captada por este em “Lavoura Arcaica”, por exemplo).
Em resumo, “Che” é muito melhor do que afirmam seus depreciadores, embora fique abaixo dos propósitos iniciais. Apenas a interpretação quase mediúnica de Benício del Toro seria suficiente para transformá-lo, no mínimo, numa lição de mimetismo dramático. Como diz seu personagem, no desfecho da primeira parte, ele está “increíble”.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A Vale é nossa?

A venda da Vale do Rio Doce obedeceu ao padrão vigente nos governos FHC: valor irrisório em dinheiro podre e público, favorecimentos aos compradores, pouca ou nenhuma contrapartida posterior. No livro “O Brasil privatizado”, Aloysio Biondi expôs esse desmanche criminoso do aparelho estatal brasileiro. É para estômagos fortes.
Tentaram levar a Petrobras no rapa, mas não deu, por pouco. A Vale, considerando seu potencial na época, foi praticamente doada ao capital privado. É a segunda maior empresa do país, e seu papel estratégico ultrapassa o âmbito dos investimentos de grande porte. Essa história de que ela se valorizou e cresceu graças à privatização é lorota: naquelas condições, qualquer administrador mediano chegaria a resultados equivalentes. E por que tanto medo de discutir a gestão de uma empresa biliardária, que sequer existiria se não fossem os esforços e as verbas do contribuinte?
Quando a imprensa defende Roger Agnelli, está apenas fazendo lobby, provavelmente pago mesmo, no estilo jabá. Mas os interesses são todos interligados. Benjamin Steinbruch, colunista da Folha, esteve entre os compradores da Vale, da qual foi diretor.
Os privatas estão em pânico. Sua causa tem sofrido importantes revezes recentemente. O colapso da Telefonica, as tarifas escorchantes da CPFL e os pedágios paulistas tiveram em comum a generosidade dos administradores tucanos perante um grupo de apaniguados que (surpresa!) apareceram depois como financiadores de campanhas eleitorais. Não custa lembrar que a Vale demitiu, desnecessariamente, mais de 4 mil pessoas, temendo a “crise Míriam Leitão”.
Um pouco mais lesado e o povo começará a entender algo sobre a origem de seus padecimentos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A realidade olímpica

Publicado no Amálgama.

Os debates sobre a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016 começaram empobrecidos por radicalismos apaixonados. Entre a cegueira patriótica e o rancor político-partidário, há pouco espaço ao meio-termo responsável. Infelizmente, a maioria dos analistas critica a própria candidatura brasileira com distorções que nada acrescentam à complexa preparação da efeméride.
Podemos dividir as objeções equivocadas em três enunciados simplificadores, que assumem formatos variáveis segundo as circunstâncias, inclusive nas discussões sobre a próxima Copa do Mundo: a) os brasileiros são indignos do privilégio; b) o país não está preparado para tanto; c) possuímos outras prioridades ou urgências.
A primeira falácia reflete um complexo de inferioridade típico do imaginário colonizado. Bastaria relembrar seus muitos desdobramentos culturais, sociais e até geopolíticos para rejeitá-lo como estupidez provinciana. Preconceito semelhante permeia a ideologia do neo-udenismo grosseiro e elitista que transformou parte da imprensa corporativa em panfleto eleitoral.
A seguir temos uma espécie de amplificação desse princípio. Agora é a nação que, refletindo seus habitantes, possui inaptidão congênita para as delícias do chamado “primeiro mundo”. Corrupção, incompetência e dificuldades estruturais ameaçam qualquer evento internacional, mas os nossos obstáculos nasceram intransponíveis. Enquanto uns alegam que faltam benfeitorias, outros apontam que as existentes estão fadadas a superfaturamento e abandono. Acomodamo-nos ao subdesenvolvimento lucrativo e previsível, enquanto seus porta-vozes se locupletam.
O terceiro preceito utiliza retórica bem-intencionada, mas ignora os ganhos potenciais para a saúde, a educação e a cidadania proporcionados pelo esporte. Mesmo que discutamos investimento público (o privado virá apenas por causa dos Jogos), como distinguir os gastos obrigatórios dos supérfluos? Alguém pode propor a suspensão dos campeonatos de futebol para bancar a alfabetização, ou que hospitais sejam construídos com as fortunas “torradas” em exposições e festivais de cinema, teatro e dança. E, afinal, para quê realizar eleições tão onerosas se há tantas carências? Fechemos logo o Congresso para salvar nossos velhinhos...
Mas tais deturpações são irrelevantes agora. Encaremos as contingências do fato consumado, compreendendo que o enorme triunfo político do presidente Lula não será ofuscado por eventuais impropriedades cometidas em administrações futuras. O ônus de qualquer fracasso incidirá coletivamente, acima de limitações partidárias. É demasiado tarde para mesquinharias políticas.
Acima de tudo, evitemos os perigos da condescendência. Para empreendimento dessa importância é fundamental promover um amplo choque de civilidade, a começar pelo cidadão comum. Por exemplo, os imbecis que vaiaram Lula na abertura do Pan-americano (e depois cinicamente comemoraram sua vitória olímpica) retornarão às arquibancadas. E os motoristas cariocas precisam entender que europeus acreditam em faixas de pedestres. Porém, enquanto os governantes se contentarem com favelas muradas, ônibus disfarçados de “metrô de superfície”, lagoas e praias infectas e banditismo policial, o padrão de qualidade continuará baseado no improviso, no paliativo, na malandragem “ishpérrta”.
A eleição pelo Comitê Olímpico representou uma derrota das superstições que sempre refrearam a audácia e o espírito empreendedor fundamentais para qualquer projeto nacional digno. Resta impedir que aqueles vaticínios trágicos se realizem.

domingo, 11 de outubro de 2009

Augusto dos Anjos (1884-1914)

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

1901

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Nobel infame

O Nobel da Paz para Barack Obama é uma brincadeira de mau gosto. Nada muito destoante dos condecorados anteriores, com a diferença de que o estadunidense nem precisou fingir que trabalhava para “fortalecer a diplomacia internacional e cooperação entre os povos” – primeiro porque não teve tempo e segundo porque não quis.
Ele é responsável pela sobrevivência de um campo de concentração e duas guerras injustificáveis, espalhou bases militares na América Latina e silencia perante um golpe de Estado a poucas horas de Miami.
Mas o comitê sueco quis enfraquecer o reacionarismo obtuso dos adversários do presidente. Aproveitou o grande marco histórico de sua vitória para lhe estender um salvo-conduto ainda mais duradouro e temerário que o já concedido pela provinciana imprensa mundial.

Dylan-Lá

Bob Dylan, descubro estupefato, concorre quase todo ano ao prêmio de literatura. Sua nova indicação, com apoios importantes, anuncia que a homenagem pode voltar a considerar apenas a importância da obra, não contingências político-biográficas. É só o velho bardo resistir mais alguns anos; o churrasco está marcado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

“Gamer”

É fácil superestimar filmes de ação ou ficção científica que tentam aliar o puro entretenimento com vapores intelectuais. A análise imediata, sem apoio do anos, às vezes confunde camadas de significados com o subtexto do marketing, o resultado efetivo com as pretensões dos distribuidores.
Para melhor sorver “Gamer” é útil ignorar o monofásico Gerard Butler, os clichês múltiplos e certo panfletarismo antimidiático dos diálogos. E assim descobrimos que o filme é uma boa (e despretensiosa) alegoria futurista sobre os usos totalitários da tecnologia e a desumanização da experiência virtual.
A contundência do jogo de relacionamentos tipo “Second life” é algo que não se encontra em qualquer bobagem hollywoodiana. E há uma importante cena-síntese, original e simbólica: o vilão (Michael C. Hall, da série “Dexter”, em atuação inspirada), cantando “I’ve got you under my skin”, rodeado por trogloditas sapateadores.
No mais, resta a porradaria e os efeitos visuais. Nada contra, diga-se.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ciro na berlinda

O papel de “encarregado de serviços sujos” que Ciro Gomes está disposto a assumir para a candidatura governista não é novidade nem caso isolado. Toda campanha tem esses acertos. Aparentemente, Marina Silva e Sônia Francine fecharam os seus, nos respectivos contextos, com o PSDB.
A mídia serrista ainda não sabe o que fazer com Ciro (nem com Marina).
Precisa incensá-lo por dois motivos: a) para gorar o acordo PT-PMDB, espalhando a bobagem de que apenas o deputado impediria José Serra de ganhar no primeiro turno – há meses as pesquisas mostram que Serra não tem chance de vencer no primeiro turno, em qualquer cenário. E b) manter Ciro na disputa nacional, afastando-o da campanha pelo governo paulista. É ali, no tabuleiro tucano, minando o favoritismo de Serra em seu próprio quintal, que Ciro poderá decidir a eleição presidencial. Já disse e continuarei repetindo: Serra não será candidato a presidente se surgir uma forte candidatura adversária em São Paulo.
Ao mesmo tempo, entretanto, os analistas já perceberam a necessidade de impedir que Ciro ganhe importância demasiada como o anti-Serra universal. Um artigo de Elio Gaspari expôs esse medo de forma exemplar: mexeu com nosso governador, toma safanão.
Nas próximas semanas, esses ataques serão mais contundentes, pessoalizados, provocando o temperamento irascível do deputado. A idéia é indispô-lo com o PT, que, graças ao proverbial pendor auto-destrutivo, pode investir numa candidatura própria isolada e rejeitada, oferecendo de bandeja a vitória tucana em São Paulo.