Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Allen Ginsberg (1926-97)

Um supermercado na Califórnia

Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitmam, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?

E o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual é o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?

Tradução de Claudio Willer

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

“Dicionário de pequenas solidões”

Recebo de Ronaldo Cagiano seu bom volume de contos, em edição mais do que esmerada (Língua Geral, 2006). Temática suburbana, personagens trágicos, linguagem direta e crua que adota o monólogo interior sem cair na caricatura. Cagiano topa o risco, por si só uma qualidade rara no escritor contemporâneo.

Fígaro
(trecho)

“Recebeu na cara o vento inaugural da manhã e olhou fixamente um céu distante e pavoroso e viu de novo a cidade, aquela paisagem difusa crescendo em suas retinas. Uma tristeza oceânica, o silêncio reverberando inquieto, cerimonioso. As imagens se sucedem: desconexas, saltitam e comicham, cascavilhando a memória em sua trajetória de insistência: mancomunando contra a sua resistência em rever o passado diante daquela sacada. Tudo parecia um emergir violento, como um estouro de búfalos, de um sono (de um sonho? não, porque a realidade era próspera, próxima demais para ser esquecida), mas naquele canto – quietude e angústia se misturando – ainda soavam as tesouras, os fregueses esperando a sua vez, o cheiro de álcool recém-passado nos rostos escanhoados, os braços agitados do velho pai com suas pernas cheias de varizes e sem hora para comer, as folhinhas velhas penduradas na parede, o antigo ventilador Eletromar colocado estrategicamente num canto a digerir os verões (...)”.

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Por falar em PMDB

Sob condições “normais”, a imolação pública de José Sarney mereceria lautos festins. Acontece que a febre moral da grande imprensa visa apenas desgastar o PMDB governista antes das disputas de 2010. É pura campanha eleitoral.
As sucursais brasilienses existem há décadas, com repórteres alimentados por centenas de fontes em todos os níveis de poder, e nenhum deles, nenhunzinho, jamais soube de falcatruas operadas por diretores do Senado antes do governo Lula (nunca é demais lembrar que Agaciel Maia esteve lá por 14 anos). O Sarney que presidiu a Casa e coordenou a base parlamentar do governo FHC (1995-97) era probo, literato e elegante.
Parece que duvidar da imprensa virou elogio ao coronel maranhense. Sei. Então tá. Proponho o seguinte: aspiremos bons fluídos republicanos, montemos na vassoura ética e investiguemos o PMDB de uma vez por todas. Que tal começar pelo quercismo?
Sugiro um levantamento dos órgãos e cargos ocupados por peemedebistas na atual gestão paulistana de Gilberto Kassab. Como se sabe, a vice-prefeita, Alda Marco Antônio, foi secretária dos “polêmicos” governos estaduais de Orestes Quércia (1987-90) e Luiz Antônio Fleury (1991-94) – aquele do massacre do Carandiru.
Alguém pode aproveitar o embalo para escarafunchar também o governo de José Serra, que se aliou a Quércia para vencer a disputa estadual e manter sólida maioria na Assembléia. Não parece razoável que uma aliança dessa envergadura tenha transcorrido sem qualquer, digamos, retribuição. Ora, deve restar alguma irregularidade, mínima que seja, escondida nos milhares de departamentos e incontáveis gabinetes dessas portentosas máquinas administrativas.
Ops. Cadê o furor investigativo? Agora deu preguiça?

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

William Butler Yeats (1865-1939)

I
A uma criança que dança no vento


Vá lá, vá na praia dançar;
Pois como pensar que a incomoda
Rugido de vento ou de mar?
E solte os cabelos à roda,
Molhados por gotas de sal;
Tão jovem, você desconhece
O tolo exultar do boçal,
O amor que ao nascer já perece,
E o obreiro melhor que, sem vida,
Deixou a colheita ao relento.
Mas como pensar que a intimida
O grito monstruoso do vento?

_______________________

II
Dois anos mais tarde

Ninguém falou da falta de cultura
Dessas pupilas tão gentis e ousadas?
Nem lhe avisou da angústia que tortura
As mariposas quando são queimadas?
Eu lhe diria, mas... é jovenzinha;
A sua língua não é igual à minha.

Você pensa que o mundo é amigo seu,
E a tudo o que surgir vai dizer sim;
Há de sofrer como sua mãe sofreu,
E como ela há de estar quebrada ao fim.
Mas sou velho e você é jovenzinha,
E é língua bárbara esta língua minha.

Traduções de Paulo Vizioli

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Pérolas do juridiquês moderno

Escreve o advogado de um grande banco nacional, apelando de decisão em processo de cobrança perdido pela instituição em primeira instância (não é piada, embora pareça):

“Em que pese o inconformismo do queixoso, bem como seu direito constitucionalmente garantido de acesso ao Poder Judiciário para que, através do ‘conjunto de atos concatenados que visam a solução de uma lide posta à apreciação do Estado-Juiz’", conforme leciona o professor TOURINHO, venha a ter sua teratológica ‘causa pretendi’ satisfeita, por um decreto condenatório prolatado em um r. ‘decisum’ terminativo negativo ao banco contestante, a presente ação não merece, sequer prosperar, haja vista a ausência de elementos fáticos e jurídicos que o fato apontado apresenta, bem como por estar baseada em alegações estéreis, cuja responsabilidade do contestante, bem como existência de dano, ou ainda ilicitude nascitura de ato deste, encontram fulcro apenas na ‘ens imaginationis’ do requerente que, ‘permissa venia’, está ‘ab absurdo’.”

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

A vitória do piquete

O recurso à paralisação e a formas variadas de protesto transformou-se em instrumento quase obrigatório de reivindicação, incorporado à própria sistemática das negociações. Nem sempre é questão de simples radicalismo. Forças antagônicas poderosas sabem que raramente chegam a consensos imediatos, endurecendo as posições para atingir um meio-termo previamente calculado.
A lógica é cruel, porque parte do pressuposto de que nenhuma solicitação será atendida até que se esgotem todos os instrumentos persuasivos. Pior ainda para os pleitos genéricos (“melhores condições de”), tratados como inconseqüentes e abusivos.
A “estratégia do embate” prevê resultados extremos. O acirramento gera abusos de força física e sanções implacáveis. Para o lado mais fraco, a derrota pode significar sofrimento e perdas materiais. Mas, nessa eventualidade, a vitória do mais forte é bastante relativa. Mesmo que ele preserve a posição privilegiada inicial, corre o risco de terminar desmoralizado pelas manchas indeléveis da violência ou do exagero.
Os grevistas das universidades paulistas dobraram a resistência da cúpula educacional do governo José Serra, agora disposta a negociar. Isso já representa um triunfo dos protestos, piquetes e ocupações, independente do acordo final. Tudo aconteceu porque a reitoria da USP, avessa ao diálogo, apostou no embate.
A inábil ação policial criou um fenômeno político incontrolável, que levou às ruas da capital milhares de estudantes, funcionários e professores em torno de uma causa originalmente restrita. O governo aceitou conversar simplesmente porque não pode espancar civis, nem demitir uma reitora em plena crise (a demissão virá tão logo o clima arrefeça), sem amargar um ônus político de repercussão imprevisível.
O episódio revela os limites do exercício presunçoso do poder e os riscos da opção pela intransigência. Também evidencia a crise de legitimidade que se abate sobre a direção das universidades públicas, “eleitas” sem participação do imenso contingente de alunos, largamente majoritário. Alguém no futuro descobrirá que é mais sábio e justo inserir os estudantes nos processos decisórios do que enfrentá-los como se fossem bandidos. Pois, contra eles, o “mocinho” não tem vez.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)

À espera dos bárbaros

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Tradução de José Paulo Paes

Veja também "Poesia na veia"

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

O primeiro revés

A legislação antifumo de José Serra, além de autoritária e demagógica, é inconstitucional, como sabemos desde o início. Nem por isso deixa de ser amplamente defendida pela mídia subalterna, a reboque da milionária propaganda do governo paulista. Recentemente, uma decisão preliminar da ministra Ellen Gracie, do STF, foi comemorada como a pá de cal nas pretensões descriminalizantes, mesmo sem abordar o mérito da questão.
Há muitas possibilidades de questionamento sobre a nefasta lei, e os primeiros resultados já aparecem: a proibição a fumódromos acaba de ser anulada, em caráter provisório. Os esperados desdobramentos jurídicos indicam que, pelo menos, haverá algum atraso para a entrada em vigor da medida.
Não que devamos alimentar alguma ilusão de sucesso final. Serra sempre consegue o que quer.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

A revista Retrato do Brasil

Os editores gentilmente enviam alguns exemplares da publicação, que já está no vigésimo terceiro número. Numa leitura apressada, percebe-se a linha editorial independente e crítica. As matérias, em geral extensas, são mais bem elaboradas que a média da produção “alternativa”.
Entre os números recebidos, destaco positivamente os artigos sobre o aniversário do MST e a mais extensa viagem de ônibus do país (março), as transações com jovens futebolistas (abril), os desafios econômicos do governo federal (maio), o programa Minha Casa Minha Vida e o aborto (junho). A nociva lei antifumo de Serra merecia um tratamento mais crítico do que recebeu na última edição.
Resta uma crítica propositiva final: o desenho gráfico é muito conservador e modesto, destoando da qualidade do papel, da impressão e do acabamento. Certo arrojo visual e uma tipologia mais adequada seriam muito bem-vindos.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A internet sob controle

Publicado na revista Caros Amigos em junho de 2009

A tipificação de crimes virtuais constitui uma tendência mundial irreversível. Em meio a debate acalorado na comunidade digital, o Brasil também elabora legislação para monitorar a conduta do internauta e regulamentar a utilização de equipamentos, insumos e arquivos eletrônicos. Mas o necessário combate a práticas lesivas, como pornografia infantil e fraudes diversas, ameaça criar um sistema de vigilância sobre os usuários, atingindo a manifestação da opinião, a troca de informações e a privacidade.
Evidentemente, a medida favorece interesses corporativos diversos. Produtores e distribuidores das mídias tradicionais tentam resguardar seus vultosos lucros. As instituições financeiras não querem mais arcar sozinhas com o ônus da segurança digital. E o jornalismo impresso, que vive uma crise inédita de credibilidade, precisa limitar o trânsito de informações para garantir o monopólio da propaganda dissimulada a serviço dos seus apadrinhados políticos.
Além do pendor despótico, a investida repressora é marcada pela inviabilidade prática original. A fiscalização do universo virtual beira o impossível, e a idéia de que todo usuário (especialmente o malfeitor) poderá ser identificado e punido equivale a um delírio totalitário. Não há sequer consenso doutrinário sobre a propriedade intelectual e o direito de acesso a bens culturais ou educativos. Ademais, apesar da enganadora facilidade do manuseio cotidiano, a enorme complexidade técnica da rede escapa ao entendimento de seus tutores legais.
Ocorre que as legislações aparentemente inúteis possuem desdobramentos que ultrapassam os objetivos professados. A simples pretensão de enquadrar a internet nos mecanismos coercitivos do Estado burocrático revela o autoritarismo dos proponentes. O controle sobre a individualidade pode mudar os métodos, mas não sua essência.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Pedro Kilkerry (1885-1917)

O Verme e a Estrela

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus.
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! Enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! Ceguei da tua luz?

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Mitos iranianos

As eleições no Irã servem perfeitamente à propaganda do Eixo do Mal, o estilo “Guerra Fria” modernizado que continua a pautar a cobertura internacional da grande imprensa. A desinformação tende a piorar com o acirramento dos ânimos, alimentando um repertório de bobagens que, sem as devidas correções, ganharão status consensual. É interessante romper esse processo de criação de falsas verdades enquanto a imprevisibilidade dos acontecimentos ainda o permite.

Fraudes provam que Ahmadinejad perdeu? – tudo leva a crer que houve uma série de irregularidades por todo o país. Mas ninguém conseguiu dimensioná-las ou determinar seus autores, enquanto vazam contagens paralelas e apócrifas que beiram o inverossímil. Nenhuma fonte iraniana confiável (incluindo vários oposicionistas) questiona a inevitabilidade da reeleição do presidente, extremamente popular entre as classes menos favorecidas e no interior.

Uma revolução em curso? – os numerosos protestos são inéditos na história recente do país. Mas concentram-se nas grandes cidades, especialmente em Teerã. O tal “clima nacional” das manifestações não foi comprovado, pois os correspondentes internacionais se restringem à capital. Ali também houve pelo menos duas grandes passeatas favoráveis a Ahmadinejad, que não receberam destaque na imprensa. O movimento oposicionista é menos organizado e uníssono do que parece.

Mousavi é liberal? – A mídia internacional sempre o considerou um radical. Hoje ele assume discurso moderado, mas jamais questiona a República Islâmica, antes defende o retorno a seus princípios originais. Foi primeiro-ministro de 1981 a 1988, período particularmente repressivo da política iraniana, que coincidiu com a guerra contra o Iraque. Seu governo perseguiu oposicionistas e impôs diversas das restrições de vestuário e comportamento que se costuma associar à dureza do regime.

Os EUA cautelosos? – É evidente (e pouco dissimulado pelo próprio governo Obama) o apoio conferido à oposição. As cifras envolvidas variam de acordo com o informante, mas coincidem na escala milionária. Sob a censura e a repressão do governo iraniano, seria materialmente impossível organizar, financiar e divulgar um movimento reformista (tão bem-sucedido quanto instantâneo) sem forte amparo externo.

Uma ótima fonte dos acontecimentos pode ser obtida nos relatos de Robert Fisk, talvez o mais importante correspondente internacional no Oriente Médio (em inglês).

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Angeli

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Os efeitos da altitude no jornalismo esportivo

Publicado com o título "Os efeitos da altitude na mídia brasileira", no Observatório da Imprensa.

Na noite de quarta-feira, dia 14 de fevereiro de 2007, o Flamengo empatou em 2 a 2 com o Real Potosí, pela Copa Libertadores. O jogo foi realizado na Bolívia, a quase 4 mil metros do nível do mar. Alguns jogadores brasileiros passaram mal no segundo tempo e chegaram a utilizar um cilindro de oxigênio para recuperar o fôlego.
A diretoria flamenguista declarou que o time jamais voltaria a jogar em tais condições. Advogados e diretores foram mobilizados. A assessoria de imprensa do clube afirmou ter recebido a denúncia de que um jogador mexicano morrera em plena partida, na mesma altitude. O assunto alimentou o noticiário sensacionalista sobre fatalidades envolvendo atletas profissionais e amadores.
O apoio da crônica esportiva foi imediato, generalizado e radical. Até desafetos notórios, como Juca Kfouri e Milton Neves, uniram-se na onda de indignação. “A Fifa está esperando alguém morrer”, acusou o primeiro. “Ainda morrerá algum jogador nas altitudes”, o outro vaticinou, em comentário separado. A cruzada envolveu Ricardo Teixeira, que conseguiu extrair da Fifa a suspensão de partidas acima de certa altitude.
Um ano depois, a entidade anulou o veto e o assunto caiu no esquecimento. Tamanha reviravolta não se explica apenas pela pressão dos dirigentes e governantes sul-americanos, embora alguns comentaristas tenham feito vasto uso ideológico do caso. Antes de Evo Morales e Rafael Correa, ninguém ameaçou tolher o trunfo geográfico dos times de seus países. Criticar o presidente Lula por defendê-los foi uma forma sutil de contaminar as discussões com meneios político-eleitorais.
A campanha contra a realização de jogos em altitude fracassou porque logo ficou evidente que ela visava apenas proteger os interesses dos grandes times brasileiros. A tese de que a altitude traz riscos para a saúde dos atletas nunca foi endossada tecnicamente. Os palpites dependem do fisiologista ou clínico entrevistado, e os jornalistas escolhem as opiniões que lhes convêm. Sintomaticamente, os veículos resistem a investigar boatos sobre mortes (a do mexicano jamais foi confirmada) e a divulgar os estudos disponíveis sobre o assunto. E eles existem (leia o texto na íntegra)...

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Arthur Rimbaud (1854-91)

Vênus Anadiomene

Qual de um verde caixão de zinco, uma cabeça
Morena de mulher, cabelos emplastados,
Surge de uma banheira antiga, vaga e avessa,
Com déficits que estão a custo retocados.

Brota após grossa e gorda a nuca, as omoplatas
Anchas; o dorso curto ora sobe ora desce;
Depois a redondez do lombo é que aparece;
A banha sob a carne espraia em placas chatas;

A espinha é um tanto rósea, e o todo tem um ar
Horrendo estranhamente; há, no mais, que notar
Pormenores que são de examinar-se à lupa...

Nas nádegas gravou dois nomes: Clara Vênus;
- E o corpo inteiro agita e estende a ampla garupa
Com a bela hediondez de uma úlcera no ânus.
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O Adormecido do vale

Era um recanto onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.

Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.

Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono
De uma criança que risse, enferma, no seu sonho:
Tem frio, ó Natureza - aquece-o no teu leito.

Os perfumes não mais lhe fremem as narinas,
Dorme ao sol, suas mãos a repousar suspiras
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.

Traduções de Ivo Barroso.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Governando na porrada

Querem nos fazer acreditar que houve um “confronto” entre estudantes e policiais na USP. Os primeiros provocaram com xingamentos e pedras. A tropa, munida de escudos e capacetes, montada em cavalos, respondeu com bombas e borrachadas. Seria cômico não fosse tão próximo e assustador.
Ninguém precisa ter sido vítima dos abusos dessa PM truculenta, assassina e despreparada para saber que o episódio no campus resume-se a uma agressão gratuita e absurdamente desproporcional, motivada pela prepotência desses burocratas demo-tucanos que destroem o Estado de São Paulo há décadas.
A ridícula defesa da reitora (sim, reitora) Suely Vilela serve muito bem ao repertório direitoso da chefia aquartelada no Palácio dos Bandeirantes. Chamar os cossacos para dissipar protestos de professores e estudantes é coisa de carcamano desacostumado com negociações e debates. Dá para imaginar como será com Serra na Presidência da República.
Quando alguém alertava que legislações repressivas (antifumo e afins) precisavam ser imediatamente rechaçadas, para não permitir a gestação de um ânimo conservador que futuramente estendesse suas asas negras sobre os demais direitos dos cidadãos, o aviso parecia coisa de paranóico. Pois é.

Em tempo: há imagens do ataque, com texto saudavelmente bem-humorado, no blog do professor Hariovaldo Almeida Prado. Mais informações na página do DCE.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

O blog da Petrobrás

É fácil compreender por que a mídia oposicionista reagiu tão veementemente contra o novo blog da Petrobrás: o sucesso da iniciativa transformou-a num dos muitos símbolos de resistência à contaminação política do noticiário que cobre os governos Lula. E representa uma ruptura na pusilanimidade que marcou a comunicação dos órgãos federais nos últimos anos, inserindo-a num fenômeno virtual de mobilização que já evidencia cotidianamente o divórcio entre a grande imprensa e tal “opinião pública”.
Os argumentos críticos são pequenininhos de constranger. Então quer dizer que os veículos detêm exclusividade sobre informações colhidas junto a funcionários de uma estatal? Ou esta é que não deveria divulgar suas próprias versões de matérias que a atingem e que são convenientemente editadas para atender a interesses inconfessos (com correções eventuais, mínimas, em espaços secretos)?
Mesmo as (poucas) reações negativas ponderadas passam ao largo da questão pontual e enveredam por discussões amplas acerca da identidade ou do futuro da imprensa brasileira – convenhamos, barulho demais por causa de um instrumento simples e corriqueiro de comunicação institucional. O episódio não tem nada a ver com liberdade de informação, sigilo de fonte, “furo”, assessorias e os cambau. A Petrobrás tem tanto “direito” de publicar seus esclarecimentos que a simples menção a ele já soa boba e algo despótica – ou a validade dos preceitos democráticos depende de quem os utiliza?
A reação midiática é corporativa, quando não puramente partidária; ainda outra vez, tenta-se vilanizar a administração federal às vésperas de eleições majoritárias nacionais. A invenção de bodes expiatórios constitui apenas a face risível e supérflua dessa crise de credibilidade que os grandes veículos nacionais fingem ignorar.

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

O maior dos muros

Publicado no Amálgama.

A discussão sobre políticas públicas para favelas sempre mergulha num labirinto retórico intransponível: deve-se privilegiar a segurança ou a igualdade social, os direitos humanos ou a legalidade? Semelhante paradoxo ressurgiu no recente episódio dos muros que a gestão Sérgio Cabral pretende construir na zona sul carioca. A controversa barreira física contribui para a propagada defesa do patrimônio ecológico, mas esse benefício específico justificaria seus custos sócio-culturais?
O embaraço é inevitável porque, se a opção repressiva fracassou, a questão legal jamais pode ser negligenciada. A tolerância perante práticas delituosas das populações locais (inclusive o silêncio cúmplice) confere pretextos para as atrocidades do crime organizado, que culminam em brutalidade policial, mais isolamento e abandono. E a expansão territorial das ocupações irregulares precisa de limites rígidos, para preservar não apenas florestas, mas também o espaço público e a propriedade privada.
Acontece que não há saída intermediária para o problema. A única alternativa permanente, constitucional e democrática, passa pelo estabelecimento do Estado de Direito em todos os seus alicerces institucionais. Isso envolve cidadania e prerrogativas individuais, mas também responsabilidade, fiscalização e tutela judicial – em sociedades minimamente organizadas, tais conceitos são complementares, não antagônicos.
Trata-se da instalação maciça e simultânea de melhorias urbanas em regiões carentes, quebrando o círculo vicioso que as enterra na violência (o crime supre a ausência do Estado, que não quer ou não consegue vencer a resistência do primeiro). Essa obra gigantesca de reurbanização envolveria desapropriações, abertura de ruas e avenidas, saneamento básico, construção de postos de saúde, subprefeituras, delegacias, creches e escolas, centros culturais, praças e, principalmente, condomínios residenciais (leia o texto integral).

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Louis MacNeice (1907-63)

Reflexos

O espelho na lareira reflete a refletida
Sala em minhas janelas; no espelho, à noite, esses efeitos
Mostram-me duas salas e na primeira o esquerdo é direito,
Enquanto a segunda, para lá da janela, tem a imagem corrigida
Mas aí estou, de costas para minhas costas. A lâmpada
Comum está três vezes no espelho, duas na janela,
O fogo no espelho jaz duas salas além, pela janela,
E pela janela chega o fogo ao terraço, uma sala depois,
E minha sala real é um sanduíche entre invenções
Da noite, luzes, vidros – e em todas as direções
Vejo além dos reflexos o brilho morto
Das lâmpadas da rua em minha sala encalhada
Que um taxi pode atravessar até a estante
Cujos livros ninguém pode ler e, vencendo a lareira
Que não me aquece, chegar até a minha mesa
Onde não posso escrever, porque não sou canhoto.

Tradução de Jorge Wanderley. Saiba mais sobre essas sextas-feiras poéticas.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Um epitáfio para a reforma política

Outra iniciativa reformista foi abortada no Congresso, demonstrando que modificações sérias das estruturas político-eleitorais brasileiras precisam ser empreendidas por assembléias eleitas para esse fim ou por comissões excepcionais com legitimidade longamente construída nas próprias Casas e junto à sociedade. Só ingênuos acreditam que os parlamentares abraçariam regras que tolham seus benefícios, numa tramitação apressada e cheia de pendências, apenas para satisfazer surtos moralistas que, todos sabem, escondem interesses pouco nobres.
A fritura sistemática e quase generalizada do projeto revela o que ele tinha de positivo. Seus inimigos pertencem a três grupos distintos, mas interligados: congressistas de partidos de menor expressão ou legendas de pouca identidade programática (três quartos dos plenários); o jornalismo oposicionista; e o PSDB. Cada facção ilustra os benefícios que a reforma traria.
O voto em lista reforçaria a identidade partidária, fazendo das agremiações os verdadeiros fóruns de debate político. Também coibiria as legendas de aluguel, minando candidaturas personalistas e corporativistas, calcadas em popularidade individual ou lobbies empresariais.
Sem contar o trunfo simbólico, falso ou não, que seria identificado ao governo Lula, uma transformação dessa monta levara também ao fortalecimento do PT, encaminhando o espectro partidário a um enxugamento radical. Isso acarretaria, em médio prazo, uma inevitável alternância regional de poder – e há lugares onde essa possibilidade não é aceita pelos atuais mandatários (o Estado de São Paulo, por exemplo). Ademais, a simples possibilidade de um Congresso Nacional com maioria progressista é tida como pesadelo inaceitável.
Já o PSDB (e seu gêmeo DEM-PFL) se veria apartado da arrecadação privada para campanhas eleitorais. Basta analisar as ramificações do escândalo envolvendo a empreiteira Camargo Corrêa, Fiesp e congêneres, para se ter uma noção vaga do alcance desse problema. O financiamento público nivelaria as chances iniciais dos candidatos de todas as extrações sociais, e de todas as representações políticas. E o controle sobre os gastos ficaria concentrado nos partidos, facilitando a fiscalização e a responsabilização dos abusos. Transparência é boa no bolso dos outros.
Nada disso significa que a reforma seria uma panacéia absoluta ou inviolável. Mas a forma como foi gradativamente aniquilada, principalmente pela imprensa paulista, revela muito dos interesses que contrariou – e dos limites desse discurso ético desferido contra um Congresso que, no fundo, no fundo, ninguém quer mudar tanto assim.